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de teresa a antônio, em dezembro

  • Foto do escritor: scentipoda
    scentipoda
  • 5 de mai. de 2019
  • 3 min de leitura

Antônio,


vivo querendo te escrever cartas. em vez disso te mando um olá discreto. detesto que a comunicação do nosso tempo tornou as familiaridades tão frágeis. um oi discreto, uma preocupação com o outro marcada por reticências. sei que você se importa com a minha saúde e felicidade e você sabe que me importo contigo de todas as maneiras. ainda assim, o silêncio não-hostil estabelecido entre nós ainda me faz lamentar. nosso maldito tempo com nossa maldita comunicação. o amor não é estabelecido por conversas diárias e contínuas. o amor tem pausas e nuances. ainda assim, o que no fundo eu desejo é sua atenção contínua, nossas conversas de madrugada, nossa familiaridade cotidiana, o conhecer-te pelos diálogos que cabem a nossa exclusiva interpretação, a nuance estabelecida entre seus sentimentos não ditos e as minhas sensações exacerbadas. sinto até mesmo falta dos meus próprios surtos e tento sentir raiva. não consigo, não de verdade. você aparece ainda nos meus sonhos pelo menos duas vezes por semana, quando não tomo todos os remédios devidos para neutralizar meu inconsciente. tudo isso para dizer que queria te escrever cartas. queria que nossa comunicação fosse feita em textos nada sintéticos. que eu soubesse como você anda bem onde está e com quem está não por pistas virtuais mas porque você se importa em me escrever sobre isso. eu te escreveria mensalmente e te contaria tudo, e essa distância entre nós não seria tão gritante. eu te contaria que carolina saiu de casa recentemente, casou-se. que agora sou a irmã mais velha solteira e falida. minha mãe continua com as mesmas neuras de sempre e quer que eu arrume logo uma vida. eu não tenho vontade de ter uma. as férias me deixam esmorecida, já te falei sobre isso. fico o dia todo pensando nos silêncios que mantenho com tantas pessoas, e até sinto falta da poluição sonora, visual e sensorial que viver muitas coisas ao mesmo tempo me proporcionava no ano passado. lembro que vivíamos reclamando, querendo estar sozinhos no mundo. que besteira. não consigo admitir, porque seria menos racional e menos maduro, e não quero voltar a não sair da cama remoendo minha solidão. levanto da cama todos os dias e finjo que a espanto. faço coisas pela casa e às vezes visito Ester; desde que terminou com cristina ela anda confusa. passa o dia deitada naquele tapete, entregue à morte. tenho vontade de me entregar também, mas converso com ela. ela ainda consegue rir e isso me faz sorrir. nem me lembro se cheguei a te contar do término das duas, mas cristina deve já ter feito isso. além disso, tenho visto aqueles filmes que você chegou a rabiscar no meu caderno. fico me perguntando se você chegou a ler os romances que te indiquei, sem nunca te perguntar. se escrevêssemos cartas, eu perguntaria. esse é o problema. quando posso manter contato apenas com o tamborilar da ponta dos dedos numa telinha, caio em silêncio. é constrangedor te ter tão longe e tão perto. no fim, opto pelas reticências, e acho que você prefere assim. não quero perturbar seus pensamentos, embora às vezes ainda o faça. seguir em frente não é difícil para mim, juro, não o é. o difícil é aceitar que seu capítulo na minha vida, tão curto e sem pontuação ou estrutura, é e continuará sendo tão significativo. sinto que você foi meu último amor expresso, e que você levou alguma coisa de mim que talvez tenha jogado fora no caminho para casa. mas o que você deixou comigo, antônio. ah, antônio. eu o tenho grudado nas minhas paredes, e o carrego comigo. e eu me conheço bem, não deixarei de carregar. espero que você sinta essa carta escondida nas minhas reticências, já que nunca vou enviá-la. é formal demais, e eu teria vergonha, você sabe.

com todo o pesar e carinho, teresa.

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